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Psicología y Psicopedagogía
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SEMIOLOGIA E PSICOPEDAGOGIA: um enfoque interdisciplinar

 

Eliana Branco Malanga[1]

 

 

 

Este artigo apresenta os resultados de uma pesquisa realizada na UNISA (Universidade de Santo Amaro) por uma equipe do Mestrado em Psicopedagogia, composta pela autora e três mestrandas do programa (Márcia Viana Sena Magalhães, Eline Martiniano de Carvalho e Dionice Martins Pereira de Oliveira).

 

Palavras-chave: psicopedagogia, lingüística, semiologia, semiótica, pensamento, linguagem.

 

 

This article presents the results of a research made in the UNISA (Universidade de Santo Amaro) by a group composed of a professor and two graduated students from Master program in Psychopedagogie.

 

Key-words: psychopedagogy, linguistics, semiotics, thinking, language.

 

 

A PSICOPEDAGOGIA E AS CIÊNCIAS QUE A FUNDAMENTAM

 

A Psicopedagogia é um ramo novo do conhecimento científico. Essencialmente interdisciplinar, ela se distingue da Educação propriamente dita, com a qual interage, como instrumento de suporte. Da Psicologia, utiliza a fundamentação teórica e alguns recursos terapêuticos ou diagnósticos. Apoia-se ainda a Psicopedagogia nas ciências biológicas — Medicina, Fonoaudiologia, Nutrição, Fisioterapia etc. — na medida em que, sendo o aprendente um organismo vivo e dinâmico, qualquer alteração biológica influencia as condições que permitem a aprendizagem.

Ao estudar os processos de aprendizagem, neles interferindo de maneira a permitir que todo ser humano desenvolva seu potencial cognitivo, a psicopedagogia utiliza-se obrigatoriamente da Lingüística. Isto porque, a primeira fase do domínio de qualquer área do conhecimento é o aprendizado das linguagens. Isto é verdadeiro para as primeiras etapas do estudo formal escolar, quando se espera que a criança aprenda  a codificar e decodificar na língua corrente do país onde vive, tanto por escrito como oralmente, bem como na linguagem exata da matemática. Mas também o é em etapas posteriores, quando o aluno terá contato com a expressão científica, com a computação, e até no nível universitário, quando já se trata de dominar o código profissional da área escolhida. Isto sem falar no aprendizado da línguas estrangeiras, que também faz parte de todos os currículos e de cursos extra-curriculares, e da música, das artes plásticas, que também são linguagens, da dança, do teatro etc.. Enfim, ao longo do tempo de estudo, o ser humano estará sempre em processo de aquisição e busca de domínio de novas linguagens.

A contribuição da Lingüística para a Psicopedagogia vem sendo conhecida pela maior parte das formulações teóricas, inclusive, quando se reflete sobre a relação entre linguagem e pensamento. Entretanto, não nos comunicamos nem aprendemos somente através da linguagem verbal (oral ou escrita), mas utilizamos diversas linguagens para a nossa comunicação: linguagem plástica, linguagem icônica, musical, cinematográfica, gestual, tátil etc.. Por volta dos dois anos, a criança começa a substituir a ação de contato direto com os objetos por símbolos, que podem ser imagens, palavras, formas, gestos, sons etc.. O domínio de qualquer linguagem exige um aprendizado, sendo que boa parte desse aprendizado é realizado através do convívio social e da socialização.

Cada vez mais percebe-se que as simbolizações não verbais precedem a simbolização verbal no aprendizado infantil. Não que estas venham a ser abandonadas com a aquisição da linguagem oral e, posteriormente, da linguagem escrita. A linguagem corporal nos acompanha por toda a vida. Ela é, contudo, crucial em determinado período da vida, quando é a única a que o ser humano tem acesso, e, seu pleno domínio e aquisição influenciaram na posterior capacidade de simbolização, e, conseqüentemente, na aquisição e domínio da linguagem oral e da escrita.

Levando-se em conta que as demais linguagens estão presentes nos processos de aprendizagem e de construção do pensamento, verifica-se que não somente a Lingüística, que se dedica especificamente ao estudo da linguagem não-verbal, oral e escrita, oferece um campo de estudo interdisciplinar com a Psicopedagogia, mas também a Semiologia, que abrange o estudo dos processos de significação de todas as linguagens.

Esta pesquisa buscou identificar as contribuições que a Semiologia pode dar ao corpo teórico e à prática da Psicopedagogia.

 

LINGÜÍSTICA E SEMIOLOGIA

 

A Língüística e a Semiologia como ciências autônomas são relativamente recentes, tendo pouco mais um século se utilizarmos como marco inicial os trabalhos de Charles S. Pierce publicados na segunda metade do século XIX, e através dos quais a Semiologia começa a surgir como um ramo específico derivado da Filosofia. São do início do século XX (aproximadamente 1915) as conferências de Ferdinand Saussure, que marcam o início dos estudos lingüísticos propriamente ditos.

Passados quase cem anos, e talvez em função do surgimento e expansão do uso das linguagens artificiais, as “linguagens de máquina”, têm-se aguçado nos educadores a consciência da necessidade de compreender as linguagens e os mecanismos de seu aprendizado. Nesse momento já estamos adentrando o campo da Psicopedagogia.

Por ser a superposição interdisciplinar entre duas áreas bastante novas, os estudos sobre as contribuições da Lingüística à Psicopedagogia são ainda escassos, justificando-se a realização de investigações sobre esse tema. Ainda mais raros são as pesquisa sobre da Semiologia à Psicopedagogia e sobre o uso das linguagens não verbais nos processos de aprendizado.

 

A PESQUISA

 

Este trabalho teve como objetivo geral demonstrar o potencial de utilização pela Psicopedagogia da Semiologia, como ciência que estuda as linguagens (e não apenas a linguagem verbal) e os processos de construção dos significados.

Os objetivos especifícos foram:

1 – Verificar e sistematizar os trabalhos já existentes sobre as contribuições da Lingüística e da Semiologia à Psicopedagogia.

2 – Dimensionar a contribuição de cada uma das linhas teóricas e mensurar possibilidades inexploradas.

3 – Distinguir os campos de utilização dos processos de significação racionais das projeções simbólicas em Psicopedagogia.

A contribuição da Semiologia para o corpo teórico e prático da Psicopedagogia compõe o objeto de estudo delimitado para esta pesquisa. Semiologia é aqui entendida como a ciência que estuda as linguagens e que, dentro da Lingüística aborda as unidades significantes do discurso, bem como a construção dos significados. Portanto, tanto a Semiologia como uma parte específica da Lingüística quando aplicada à linguagem verbal (oral e escrita), como quando uma ciência mais ampla quando se refere a outras linguagens têm lugar nesse trabalho. Isto porque, não se pode limitar o estudo da Psicopedagogia à aquisição da linguagem verbal, diminuindo a importância das demais linguagens, não obstante o papel destacado que a aquisição da linguagem verbal possui na educação formal.

Dentro da Semiologia podemos distinguir as questões da construção social dos significados (BLIKSTEIN, 1983) como um dos aspectos mais relevantes a serem aprofundados para a compreensão das dificuldades e possibilidades de comunicação entre ensinante e aprendente e suas conseqüências no processo de aprendizado. Se considerarmos que as palavras as frases e os gestos não têm o mesmo significado para todos as sociedades, para todos os grupos dentro de uma mesma sociedade e nem mesmo para todas as pessoas dentro de um mesmo grupo, verifica-se que a aquisição e domínio de uma linguagem implica em processos mais complexos que a simples exposição do sujeito em situação de aprendizagem ao modelo de codificação / decodificação vigente na sociedade a que pertence.

O nível conotativo da significação, quando carregado de implicações emocionais, está no âmbito da Psicologia. Entretanto, o estudo do processo de significação pertence ao âmbito da Semiologia, que com ela deve estabelecer um diálogo de complementaridade.

Quando a conotação passa a pertencer ao grupo social, ela sai do campo da Psicologia, e passa a ser dividida entre a Semiologia e a Antropologia ou a Sociologia, se for o caso.

Nesse trabalho, estas questões só formam abordadas na medida em que estejam relacionadas ao processo de aprendizado ou à relação ensinante / aprendente, aí incluídas, naturalmente, as questões institucionais escolares e familiares. Interessou compreender, sob o ponto de vista da Psicopedagogia, as interações de linguagem e significado dos vários envolvidos no processo de aprendizagem, sempre visando melhor compreendê-lo.

O problema central desta pesquisa se configura da seguinte maneira:

“Como pode a Semiologia contribuir para o enriquecimento do corpo teórico e da prática da Psicopedagogia?”

 

Hipótese básica:

“Existem ainda vastas áreas inexploradas de interdisciplinaridade entre a Semiologia e a Psicopedagogia.”

 

Hipóteses secundárias:

1 – O estudo das linguagens não verbais, utilizando-se dos métodos e teorias da Semiologia, traria uma importante contribuição à Psicopedagogia.

2 – Dentre as linguagens não verbais, destaca-se a linguagem corporal como objeto de estudo essencialmente relevante para o campo interdisciplinar de Psicopedagogia e da Semiologia.

 

Esta pesquisa se desenvolveu em duas fases. Na primeira buscou-se construir uma fundamentação teórica para a utilização da Semiologia pela Psicopedagogia e levantar as possibilidades dessa interdisciplinaridade. Nessa fase, o método de abordagem da pesquisa foi o dedutivo, apoiando-se no corpo teórico já existente em ambas as áreas de conhecimento envolvidos: Semiologia e Psicopedagogia. Na segunda, fez-se a observação prática de atividades que utilizam linguagens artísticas e dos resultados das mesmas sobre a capacidade dos estudantes a elas expostos de utilizarem a linguagem escrita como forma de expressão individual.

Também fez parte da segunda fase da pesquisa a criação de um modelo de análise de discurso verbal que possa ser utilizado em trabalhos de pesquisa de Psicopedagogia.

Os trabalhos de campo caminharam para duas áreas bastante diversas porque o objetivo da pesquisa é explorar as possibilidades de contribuição da Semiologia à Psicopedagogia.

Como métodos de procedimento foram utilizados: o estruturalista no que se refere aos estudos lingüísticos e semiológicos, em consonância com as teorias de base adotadas; o comparativo para perceber as semelhanças e complementaridades entre os objetos de estudo da Semiologia e da Psicopedagogia no que se refere à estruturação do pensamento e da comunicação oral e escrita.

A pesquisa teve duas fases. A primeira consistiu na elaboração da fundamentação teórica interdisciplinar entre a Psicopedagogia e a Semiologia. Na segunda fase, já envolvendo a equipe de pesquisa, buscou-se observar em campo as aplicações da Semiologia na construção do conhecimento, estudando a contribuição das linguagens artísticas não-verbais no desenvolvimento da autoria do pensamento em crianças e adolescentes. Especificamente foram estudadas as artes plásticas e a dança.

Como técnicas foram empregadas: pesquisa bibliográfica e a observação direta intensiva tanto a participante (caso das artes plástica em que o observador foi a própria professora de educação artística, mestranda em Psicopedagogia) como a não participante (no caso da dança, do teatro e da análise de discurso).

Paralelamente, buscou-se criar um caminho de utilização da análise de discurso como técnica de análise de dados para a Psicopedagogia.

Por se tratar de estudo interdisciplinar apoiou-se de dois corpos teóricos consistentes, um que fundamente a Semiologia, ponto de partida deste estudo e outro que consiste nos autores clássicos da Psicopedagogia: Piaget, Vigotsky, Alicia Fernandez e Sara Pain.

Com relação à Semiologia (e parte da teoria Lingüística indispensável para a compreensão da Semiologia), foi adotada a linha estrutural ou estruturalista, tomando por base os seguintes autores: Peirce, Saussure, Eco, Jakobson, Moles. Com relação à construção social da linguagem: Barthes, Blikstein, Ogden e Richards e Berger e Luckmann, principalmente.

 

 

CONCLUSÕES DA PESQUISA

 

Quatro áreas de contribuição da Semiologia à Psicopedagogia foram identificadas até o momento. São elas:

1 – O estudo da linguagem do corpo, seja a linguagem espontânea, seja a socialmente codificada, seja a que acompanha a fala. Este estudo serve como instrumental de diagnóstico para o psicopedagogo. Compreendendo como o ser humano se manifesta através da linguagem corporal espontânea e da linguagem gestual, o psicopedagogo tem à sua disposição mais um instrumento para compreender seu sujeito, em especial na sua parte afetiva, mesmo quando ele não é capaz de verbalizar sobre suas vivências.

2 – Uma segunda contribuição importante que a Semiologia tem a oferecer à Psicopedagogia, numa análise interdisciplinar, é o estudo das linguagens artísticas e de sua influência no desenvolvimento da autonomia do pensamento. Se entendermos que o objetivo do ensino é desenvolver a autonomia de pensamento do aprendente, e que esta autonomia se projeta (ou deveria projetar-se) ao longo de toda a vida desse estudante, mesmo quando deixe de sê-lo, podemos refletir sobre o quanto o aprendizado das linguagens artística pode contribuir para o desenvolvimento da autonomia desse sujeito. Nesse caso, tanto se pode pensar em termos diagnósticos como também terapêuticos. Mas, sobretudo, o que se pode investigar por esta via são as possibilidades de práticas a serem desenvolvidas em sala de aula, que poderiam vir a representar contribuições muito significativas no dia-a-dia das escolas.

3 – O estudo da linguagem como instrumento do pensamento, que foi iniciado por Piaget e por Vigotsky, que contestou em parte e completou os estudos do primeiro. A Semiologia vem estudando a linguagem como um fator que condiciona o pensamento, limitando-o e conduzindo-o. Sendo a língua uma construção social, seu aprendizado implica na aceitação de certos padrões ideológicos do grupo e da família. A criança, ao chegar na escola, já traz esses condicionamentos. No ambiente escolar adquire outros. O seu pensamento deve manifestar-se nos limites das normas gramaticais e do vocabulário que ela conhece. Esse processo ainda não está suficiente esclarecido, e esta pesquisa deve prosseguir com alguns trabalhos de campo que melhor permitam entender como isso se processa nas diversas fases da vida humana.

4 – A análise de discurso, técnica de pesquisa utilizada em Comunicação Social, Lingüística, Literatura e Ciências Sociais demonstrou ser também útil para a pesquisa em Psicopedagogia, a partir do momento em que se criem modelos e parâmetros específicos, os quais levem em conta a fundamentação teórica da Psicopedagogia e o seu objeto de estudo.

 

A hipótese básica que norteou este trabalho — “Existem ainda vastas áreas inexploradas de interdisciplinaridade entre a Semiologia e a Psicopedagogia.” — mostrou-se verdadeira. Na realidade, o fato de terem sido identificados quatro caminhos de contribuição da Semiologia à Psicopedagogia, leva a perceber que existe ainda um imenso campo inexplorado a ser investigado.

Com relação às hipóteses secundárias, pode-se verificar que:

1 – O estudo das linguagens não verbais, utilizando-se dos métodos e teorias da Semiologia, traria uma importante contribuição à Psicopedagogia.

2 – Dentre as linguagens não verbais, destaca-se a linguagem corporal como objeto de estudo essencialmente relevante para o campo interdisciplinar de Psicopedagogia e da Semiologia.

Além de se terem demonstrado verdadeiras também as duas hipóteses secundárias, surgiram, no decorrer da pesquisa, mais dois aspectos relevantes não previstos nas hipóteses: a importância das linguagens artísticas no desenvolvimento da autoria do pensamento e a possibilidade da utilização da análise de discurso para a pesquisa em Psicopedagogia.

 

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[1] Eliana Branco Malanga

Doutora em Ciência da Comunicação e em Letras pela USP

Professora e pesquisadora do Mestrado em Psicopedagogia da UNISA

End.: Al. dos Arapanés, 725 ap. 11 – B

CEP 04524-001 Indianópolis São Paulo SP

Electronic mail: ebmalanga@uol.com.br

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