1. Introdução
A linha de trabalho em Engenharia de
Interesse Social - EIS foi criada no Programa de Engenharia
de Produção da COPPE/UFRJ, tendo iniciado suas atividades
a partir da realização do Fórum COPPE de Tecnologia e
Desenvolvimento Social, em março de 1994, como uma
iniciativa voltada a agregar a COPPE à "Ação da
Cidadania contra a Miséria e pela Vida", que então,
em sua segunda fase, enfatizava a luta pelo emprego.
Neste Fórum deu-se prioridade ao tema
"Tecnologia e Emprego", o qual ensejou uma série
de debates com organizações sindicais e empresariais,
governamentais e não-governamentais, visando destacar
atividades e programas de ação relativos ao
desenvolvimento regional e à geração de emprego e renda
no Estado do Rio de Janeiro (Delamaro, 1997). As discussões
realizadas através do Fórum deram suporte ao
estabelecimento do Laboratório de Tecnologia e
Desenvolvimento Social - LTDS, que inicia as suas atividades
no início de 1997.
Os projetos desenvolvidos pelo LTDS são
orientados pelas reflexões desta linha de trabalho, em
cujos desdobramentos estão o desenvolvimento de novas
alternativas para a problemática relacionada ao desemprego.
Propõem-se também a oferecer uma formação que permita
tanto o aprofundamento da competência exigida pela gestão
eficaz, quanto o aprofundamento da compreensão crítica dos
limites da técnica.
A conjuntura atual exige que as instituições
funcionem como um todo sistêmico, com todos os seus setores
trabalhando com um posicionamento muito claro em relação a
quais são os seus objetivos e metas. As instituições cuja
temática de interesse é o setor social enfrentam um
desafio particular devido à dinâmica desse setor, marcado
por freqüentes mudanças. Para que os objetivos da instituição
sejam mais facilmente atingidos, torna-se desejável que os
profissionais diretamente envolvidos nas frentes de execução,
que são os responsáveis pela materialização da atuação
da mesma, estejam adequadamente capacitados em técnicas de
gestão e sintonizados com a realidade na qual estão
inseridos.
As propostas de curso, a nível de pós-graduação,
desenvolvidas pelo LTDS estão estruturadas sobre uma concepção
de gestor social que incorpore uma formação humanística
às características de empreendedorismo necessárias ao
ambiente das instituições. Mediante um convênio entre o
LTDS/COPPE e o SESI – Serviço Social da Indústria, os
cursos foram desenvolvidos como projeto-piloto e
disponibilizados para a capacitação e qualificação de 62
executivos gerentes dos Centros de Atendimento ao
Trabalhador dessa instituição, atuantes em diversos
estados brasileiros.
Neste trabalho faz-se também uma exposição
inicial sobre as ferramentas de apoio à educação à distância
mediada por computador utilizadas e sobre as tecnologias
desenvolvidas para adequação do conteúdo e atividades do
curso às condições específicas e diferenciadas dos
participantes.
2. A capacitação e formação de
gestores de iniciativas sociais
2.1. O contexto
A concepção e a estruturação de
cursos de pós-graduação para a área social vem se
apresentando como um desafio para a equipe do LTDS desde a
sua fundação, dado o imbricamento e abrangência das várias
questões que se colocam na contemporaneidade (Bartholo,
1990).
Nas últimas décadas tem ocorrido uma
significativa alteração no papel e na importância de
algumas das principais instituições internacionais,
nacionais e locais que serviram de referência para a
compreensão da realidade deste século. Experimenta-se a
radical supremacia do econômico sobre qualquer outro
aspecto da vida contemporânea (Arendt, 1991; Lima Vaz,
1990). O mercado consolida-se a nível planetário,
requerendo o surgimento de instrumentos de regulação de nível
global.
Formam-se mercados regionais de porte
compatível com os investimentos de capital necessários
para a produção competitiva. Esta, se baseia em pesquisa
científico-tecnológica de ponta e de alto custo. Afirma-se
um mundo multipolar, onde as hierarquias e as lideranças
internacionais ficam multifacetadas. Experimenta-se a
relativização da centralidade assumida pelo Estado no cenário
político moderno. Emergem as organizações da sociedade
civil da esfera local, consideradas como atores de um
ambiente mais favorável à ação política mais imediata e
ao maior controle social. Elementos de identidade cultural e
religiosa ressurgem como fatores motivadores da ação política
em substituição à mera ideologia. Tudo isso dificultando
a compreensão da realidade atual e, mais importante, uma
intervenção eficaz (Polanyi, 1980).
Os ajustes a essa nova realidade são
também predominantemente voltados para a gestão da
economia e da produção. Têm por base uma renovada e
fortalecida fé no mercado e na iniciativa privada (Bunhoff,
1991). Com a retirada do Estado tanto da atividade
diretamente produtiva quanto da provisão da infra-estrutura
a ela necessária, tornam-se acessíveis ao setor privado áreas
de atuação que anteriormente não eram de seu alcance ou
interesse (Bauman, 1999). Busca-se descobrir as
possibilidades de novas parcerias com o capital privado no
sentido de viabilizar recursos para a ação social que
outrora se faziam disponíveis apenas através do Estado.
Emerge o "terceiro setor", o qual atua a partir da
identificação de espaços de interesse comum entre o econômico
e o social, entre o privado e o público. Grande ênfase é
dedicada à formação científico-tecnológica aplicada e
ao estímulo à capacidade gerencial e operativa. Proliferam
os cursos de administração e gerência da produção e do
consumo, ao mesmo tempo em que se reduzem os recursos para a
formação humanística clássica, que passa a ser
considerada cara, além de destituída de sentido prático
(Lima Vaz, 1994). Toda e qualquer atividade, seja de
natureza produtiva ou social, passa a ter como condições
necessárias para sua existência e continuidade a
auto-sustentação financeira, custos e preços
competitivos, gestão administrativa eficiente e habilidade
nas aplicações financeiras; desconectando-se em muitas
oportunidades o saber fazer do por quê fazer.
(Bartholo, 1992).
2.2. A concepção da proposta e
objetivos
Atento para a necessidade de reunir os
dois domínios - o prático e o valorativo -, o LTDS busca
oferecer uma experiência de formação que permita tanto o
aprofundamento da competência exigida pela gestão social
eficaz, quanto o aprofundamento da compreensão crítica dos
limites dessa experiência, em busca de alternativas para a
sua superação, por meio da viabilização de uma
complementaridade entre a aquisição de ferramentas
gerenciais do mundo do saber fazer com a reflexão crítica
baseada em critérios ético-valorativos típicos do mundo
do por quê fazer.
As atividades de cunho mais conceitual são
conduzidas de modo a permitir a compreensão histórico-cultural
da questão social e sua indissociável dimensão ético-política.
Adicionalmente são disponibilizados instrumentos teóricos
e práticos mais atualizados de gestão social.
Objetiva-se assim oferecer uma
alternativa de formação pós-graduada à lideranças e
tomadores de decisão de organizações públicas e privadas
que possibilite o aprofundamento do domínio sobre métodos
e instrumentos recentes de gestão
administrativo-financeira, conjugado à formulação de uma
visão de mundo e de uma conceituação de desenvolvimento
baseadas em considerações de ordem ético-valorativas.
2.3. A estrutura e conteúdo programático
A estrutura acadêmica do curso de
especialização é modular. Cada módulo constitui um curso
de aperfeiçoamento ou treinamento profissional. O curso de
especialização é composto por três módulos de
treinamento profissional. Os módulos são autônomos e
independentes, de modo que não é necessária a realização
dos mesmos em uma ordem seqüencial única para a conclusão
do curso de especialização, visto que as disciplinas de um
dado módulo não são pré-requisitos para as disciplinas
de um outro módulo.
Os temas abordados nos módulos dos
cursos estão divididos em blocos correspondentes às competências
de um gestor de iniciativas sociais quanto ao entendimento a
respeito do contexto geral, ao entendimento do contexto
específico do setor social e à atuação direta sobre a
realidade.
O módulo Planejamento Estratégico
para a Gestão Social oferece elementos para a análise
de cenários e planejamento das ações no setor, a partir
de uma reflexão sobre a questão social nos contextos
mundial e nacional e dos pressupostos metodológicos para a
formulação de diagnósticos e planejamento estratégico.
Constitui-se das seguintes temáticas:
História do Tempo Presente: o foco dos
ensinamentos a serem transmitidos é a contemporaneidade.
Pretende-se apresentar um amplo painel das transformações
recentes e das tendências presentes nos cenários
nacional e internacional.
Redescobrindo o Brasil: objetiva situar
o modo de vinculação do Brasil aos cenários da
contemporaneidade, enfatizando a necessidade de referir o
presente a uma tradição e a uma identidade formadas na
história.
Técnicas em Planejamento e Cenários:
visa tornar acessível aos participantes a mestria de técnicas
necessárias para a construção de cenários, com aplicações
no planejamento estratégico e marketing, subsidiando a
idealização e concretização de ações.
O módulo Projetos de Gestão Social
engloba a análise e elaboração de projetos. Neste bloco
trabalha-se a origem e a evolução das políticas sociais,
passando por uma análise dos principais programas nesta área
em execução no país, e apresentando as diversas
metodologias envolvidas na concepção de projetos sociais.
Constitui-se de:
Ética e Desenvolvimento: estuda os diálogos
e tensões entre os modos de modernidade e as diversas
tradições; abordando o conceito de crise, como um
processo multifacetado, que se impacta sobre diferentes âmbitos
da realidade: o político, o social, o econômico, o ético,
o cultural e o ambiental.
A Historicidade da Questão Social no
Brasil: engloba as morfologias do Estado do Bem Estar
Social e sua implantação no Brasil, discutindo-se os
dispositivos constitucionais recentes, bem como os vários
aspectos da gestão social nas áreas de educação e
cultura, saúde, trabalho e assistência social.
Técnicas em Projetos Sociais: visa a
um aprofundamento da capacitação técnico-gerencial em técnicas
da Engenharia de Produção voltadas para o atendimento de
necessidades de iniciativas sociais, com destaque à
consideração de especificidades situacionais do processo
de desenvolvimento. O acervo de técnicas a ser
disponibilizado abrange o levantamento e tratamento de
dados e indicadores, para a elaboração e análise de
impacto de projetos sociais.
O módulo Articulação e Gestão
Social destina-se especificamente à gestão das
iniciativas sociais, com ênfase na articulação
interinstitucional que tal atividade pressupõe. Para isto,
desenvolve-se uma reflexão sobre a relação entre Estado,
Sociedade e Políticas Sociais, calcada na análise de
experiências de parcerias bem sucedidas, associada a uma
abordagem sobre os instrumentos metodológicos envolvidos na
execução, negociação e acompanhamento de projetos
sociais. Engloba:
Transformando Estado e Sociedade: o
foco da atenção centra-se nas metamorfoses da relação
entre setor público e setor privado na dinâmica econômica,
social e política de nosso tempo, paralelamente a uma
tematização sistemática das carências sociais do
Brasil contemporâneo.
Agenda Brasileira: o cerne da tematização
é a identificação de vulnerabilidades e potencialidades
de especial significado para o desenvolvimento social do
país.
Gestão de Iniciativas Sociais:
desenvolve-se ao longo de vetores de cunho qualitativo, ético-valorativo,
associando reflexões e discussões sobre temas vinculados
ao setor social e sua problematização no Brasil, e de
cunho instrumental, centralizado sobre as questões
referentes à negociação e articulação social,
monitoramento e gestão social.
2.4. Método de trabalho
A metodologia didática das atividades
acadêmicas prioriza um enfoque dialogal, envolvendo
oficinas e seminários, para se obter uma compreensão
multidisciplinar dos conhecimentos abordados, utilizando uma
estratégia de planejamento participativo no encaminhamento
das soluções dos problemas abordados.
Nos cursos associam-se informações que
traçam panoramas de cenários externos e internos das
instituições, oferecendo instrumentos de gestão e
planejamento para que os gestores melhor se posicionem face
a essas contraposições.
Com relação ao cenário externo às
instituições procura-se priorizar o conhecimento de políticas
e indicadores sociais e dos macro-elementos fundantes da
identidade social brasileira, discutindo-se os pressupostos
ético-valorativos das relações econômicas e a divisão
de poder na sociedade, contextualizada à inserção do
Brasil no panorama internacional.
Em termos de cenários internos são
providas discussões sobre os paradigmas e formas modernas
de organização das instituições baseadas no
conhecimento; a gestão em ambiente instável e a
historicidade do posicionamento das instituições frente às
políticas e questões sociais no país, construindo-se
oficinas e workshops tematizando as responsabilidades
e missão dos gestores sociais.
A intervenção na realidade enquanto prática
da atividade gerencial é referenciada no âmbito dos cursos
à instrução programada, oficinas e jogos de empresas que
possibilitam reproduzir os diversos estilos de mediação
entre os cenários, objetivando propiciar um elenco de
estratégias compatível com as peculiaridades da gestão de
iniciativas sociais, que exige uma perspectiva metodológica
dialogal e participativa.
3. Implementação do curso
O curso de especialização foi
implementado como um MSA – Master on Social Administration
– Curso de Especialização em Gestão de Iniciativas
Sociais, com uma carga horária total de 405h. As atividades
iniciaram-se em Outubro de 1999 e se estenderão a Novembro
de 2000.
Para atender os participantes de uma
turma inicial espalhados por 23 unidades da Federação,
foram planejadas atividades presenciais intercaladas por
atividades à distância. Como suporte para o
desenvolvimento da EDMC – Educação à Distância Mediada
por Computador está sendo utilizado o software UniverSite.
O UniverSite simula um ambiente universitário,
constando de salas de aula, secretaria e administração, além
de integrar diferentes meios de comunicação (e-mail,
chat, fórum e FAQ), e possibilitar o monitoramento
estatístico dos participantes.
3.1. As instâncias de comunicação
Para as atividades à distância foram
definidas três instâncias de comunicação e interlocução
com os participantes do curso: a coordenação acadêmica,
os professores e o webmaster.
A coordenação acadêmica, responsável
pela concepção, organização e acompanhamento geral das
atividades do curso, estabelece uma interlocução no que
diz respeito a comunicações de caráter formal e geral,
atendendo também a solicitações pessoais; seja por meio
de informações disponibilizadas em quadro de avisos da
coordenação, ou por meio de correio eletrônico.
Os professores são responsáveis pela
orientação dos conteúdos programáticos auxiliados pelos
tutores das disciplinas. O sistema tutorial facilita o
processo de aprendizagem, permitindo acompanhar e avaliar
continuadamente o progresso de cada participante, garantindo
um atendimento individual, cuja eficácia repousa na combinação
dos recursos comunicacionais. A comunicação entre alunos e
professores/tutores para o desenvolvimento das atividades se
realiza através de e-mail, chat e fórum. As
informações de caráter geral das disciplinas ficam
disponibilizadas em quadro de avisos dos cursos.
O webmaster é responsável pelo
apoio à navegação no software e por orientar o
equacionamento de problemas de conexão ao site. Ao longo
dos módulos, os participantes mantêm contato com o mesmo
por meio de um "curso" específico de suporte,
também utilizando as ferramentas fórum, e-mail e
FAQ.
3.2. Recursos instrucionais
Cada participante conta com um material
didático impresso de caráter auto-instrucional composto
por cadernos e fichas de exercícios de cada disciplina.
Este material impresso também se encontra em meio digital,
no site, na sala de aula de cada disciplina. O aluno
tem, ainda, indicações de textos de apoio e de sites
que auxiliam no processo de auto-aprendizagem.
A discussão e acompanhamento dos conteúdos
programáticos acontecem no ambiente da sala de aula
virtual, por meio de fórum e chat. O fórum, como um
instrumento de comunicação assíncrono, permite que o
professor disponibilize os temas, monitorando o debate entre
os participantes, e acompanhando o aproveitamento dos
mesmos. Nas disciplinas de cunho histórico e teórico, o fórum
é conduzido com todos os participantes; já nas disciplinas
práticas e instrumentais - que se desenvolvem sob a forma
de oficinas - a participação se dá em grupos de discussão
e redes de aprendizagem em temas de interesse específico.
O chat, como meio de comunicação
síncrono, é utilizado para socializar as reflexões
suscitadas pelos conteúdos programáticos das disciplinas e
como um recurso para discussão de grupos de trabalho
mediada pelos professores e tutores.
O e-mail é um instrumento
utilizado para comunicação individual entre tutores e
participantes. É também o recurso pelo qual os
participantes podem esclarecer dúvidas de conteúdo,
solicitar material de apoio, além de obter informações
quanto ao seu desempenho em atividades do curso.
3.3. Monitoramento e avaliação
No curso são realizados o
acompanhamento, monitoramento e avaliação do processo
ensino-aprendizagem pelas seguintes modalidades de avaliação:
provas, trabalhos e qualidade de participação. Estas
modalidades visam não só mensurar a apreensão e o domínio
do conteúdo dos conceitos-chave das disciplinas, como também
avaliar e promover condições de se atingir um conjunto de
habilidades, valores e competências inerentes aos gestores
de iniciativas sociais.
O acompanhamento da participação e o
monitoramento do acréscimo de conhecimento dos
participantes se dá por meio da análise e observação de
informações de natureza diversa, como dados estatísticos
disponibilizados pelo UniverSite, pesquisas de opinião
e base de dados gerados nos fóruns e no decorrer das
atividades à distância.
O monitoramento da entrada dos alunos no site
é realizado por meio de estatísticas geradas pelo software.
Este tipo de checagem permite conhecer os participantes que
possam estar enfrentando problemas para o acompanhamento do
curso e agir no sentido de identificar e de solucionar
dificuldades. As pesquisas de opinião, que são utilizadas
para se avaliar as atividades desenvolvidas durante os módulos
do curso a partir das impressões dos participantes, focam
os temas relativos às atividades presenciais e à distância,
às facilidades e dificuldades para utilização das
ferramentas de comunicação e informações quanto ao
sistema tutorial.
3.4. Dificuldades e perspectivas
Durante a implementação do MSA –
Master on Social Administration – Especialização em Gestão
de Iniciativas Sociais as dificuldades apresentadas
classificam-se em três grupos de naturezas distintas. O
primeiro grupo de dificuldades se relaciona à
heterogeneidade nos níveis de conhecimento e prática da
telemática; o segundo grupo se vincula à precariedade da
infraestrutura de rede brasileira de telecomunicações e o
terceiro grupo a questões de dificuldade de conciliação
de tempo entre as atividades rotineiras de trabalho e a
necessidade de dedicação ao curso.
As dificuldades relacionadas aos
diferentes níveis de conhecimento e habilidade para
manuseio de computadores e compreensão das ferramentas
necessárias para a realização do curso devem-se às
experiências prévias dos participantes. Para contornar ou
atenuar as mesmas durante o curso, foram testadas duas
estratégias. Ao início do curso houve a implementação
gradual na utilização das ferramentas de comunicação
mais recentes. Em associação foi disponibilizado um curso
permanente de suporte que procura orientar e sanar problemas
de navegação no software, mas também fornece dicas
básicas de como trabalhar com editor de texto e enviar e-mails.
As dificuldades associadas à
infraestrutura precária da rede brasileira de telecomunicações
são pressupostos para a realização do curso e, assim,
impedem que sejam utilizadas com mais freqüência as
ferramentas de comunicação síncronas (como os chats),
fato que leva a priorizar, durante as atividades,
ferramentas assíncronas. Para conciliar questões de tempo
de trabalho e tempo de estudo, é feito um esforço de
conscientização dos níveis hierárquicos superiores das
instituições aos quais os participantes se vinculam.
Por outro lado, o curso foi concebido
para propiciar condições de melhora na racionalidade das
intervenções na área social, fato que traz para dentro
das reflexões propiciadas pelo mesmo, muitos dos fazers
cotidianos dos participantes, o que também tende a
solucionar estas dificuldades. O grande potencial de um
curso desta natureza, associado aos recursos de educação
à distância, é a criação de redes locais e nacionais de
aprendizagem, para o enfrentamento das questões sociais.
4. Conclusões
Neste trabalho foram apresentadas as
reflexões efetivadas no âmbito da linha de trabalho em
Engenharia de Interesse Social desenvolvidas no LTDS/COPPE,
no que diz respeito às questões pertinentes à formação
e capacitação de gestores de iniciativas sociais, a partir
de uma visão das características e prerrogativas postas
para esses profissionais.
Essa proposta surgiu como uma alternativa
à preponderância das visões essencialmente pragmáticas
inerentes aos cursos de gestão oferecidos pelas instituições
superiores de ensino no âmbito das engenharias. A vigência
de tal pragmatismo cobra um preço no vazio ético-valorativo
que marca as experiências individuais e sociais contemporâneas,
gerando uma fragmentação das visões de mundo que se
tornam carentes de um ponto focal que lhes dê unidade e
sentido, visto que a eficácia não é suficiente para dar
significado à vida (Voegelin, 1982). A busca pela ética dá
base à recuperação de valores comunitários tradicionais
que tornam-se a esperança de restauração de complexos e
combalidos sistemas sociais (Kliksberg, 1997), visto que,
embora o mercado se imponha como o mecanismo mais adequado
para a provisão das necessidades materiais, não consegue
suprir as carências do espírito nem reparar os impactos
sociais que causa (Buber, 1987).
A ênfase dada pelas sociedades contemporâneas
ao saber fazer precisa ser contrabalançada pelo porquê
fazer, pela reflexão sobre o sentido e as carências da
vida atual (Buber, 1977). Afirma-se nas propostas de cursos
a necessidade de posicionar, em termos práticos e
conceituais, a existência de uma via alternativa
profissional para o futuro, construída sobre a ética e a
solidariedade (Illich, 1976), colocando-se como imperativos
os debates sobre o desenvolvimento, com a recuperação de
propostas de construção de projeto nacional, amarradas às
raízes do processo civilizatório brasileiro.
Nesse contexto é que o conteúdo e a
implementação dos cursos foi concebido de forma a ir além
da ênfase atribuída pelos cursos de administração de negócios
unicamente à questões relativas à ordem econômica,
buscando-se uma abordagem que facilite a melhor compreensão
da estrutura complexa da realidade atual, associada à busca
de formas de intervenção que dêem conta da sua
multiplicidade de aspectos (Guerreiro Ramos, 1983). Para
isso associam-se informações que traçam panoramas de cenários
externos e internos das instituições, oferecendo
instrumentos de gestão e planejamento para que os gestores
se posicionem de forma crítica face a essas contraposições.
As idéias apresentadas e desenvolvidas
ao longo do curso procuram subsidiar a resolução dos
graves problemas sociais atuais, apontando diretrizes para o
enfrentamento de outros desafios contemporâneos tais como a
sustentabilidade ambiental, o envelhecimento da população,
a geração de empregos, a crescente pobreza da população
brasileira.
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