IV JORNADAS DE EDUCACIÓN A DISTANCIA MERCOSUR/SUL 2000
"EDUCACIÓN A DISTANCIA: CALIDAD, EQUIDAD Y DESARROLLO"
BUENOS AIRES, 21, 22, 23 Y 24 DE JUNIO DE 2000

 

 
 
 

A FORMAÇÃO E A CAPACITAÇÃO DE GESTORES DE INICIATIVAS SOCIAIS: ENSINO-APRENDIZAGEM EM REDES TELEMÁTICAS COM ÊNFASE ÉTICO-VALORATIVA

Geraldo de Souza Ferreira
Andreia Ribeiro Ayres
Carlos Renato Mota
Roberto dos Santos Bartholo Júnior
Laboratório de Tecnologia e Desembolvimento Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro-Brasil

1. Introdução

A linha de trabalho em Engenharia de Interesse Social - EIS foi criada no Programa de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ, tendo iniciado suas atividades a partir da realização do Fórum COPPE de Tecnologia e Desenvolvimento Social, em março de 1994, como uma iniciativa voltada a agregar a COPPE à "Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida", que então, em sua segunda fase, enfatizava a luta pelo emprego.

Neste Fórum deu-se prioridade ao tema "Tecnologia e Emprego", o qual ensejou uma série de debates com organizações sindicais e empresariais, governamentais e não-governamentais, visando destacar atividades e programas de ação relativos ao desenvolvimento regional e à geração de emprego e renda no Estado do Rio de Janeiro (Delamaro, 1997). As discussões realizadas através do Fórum deram suporte ao estabelecimento do Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social - LTDS, que inicia as suas atividades no início de 1997.

Os projetos desenvolvidos pelo LTDS são orientados pelas reflexões desta linha de trabalho, em cujos desdobramentos estão o desenvolvimento de novas alternativas para a problemática relacionada ao desemprego. Propõem-se também a oferecer uma formação que permita tanto o aprofundamento da competência exigida pela gestão eficaz, quanto o aprofundamento da compreensão crítica dos limites da técnica.

A conjuntura atual exige que as instituições funcionem como um todo sistêmico, com todos os seus setores trabalhando com um posicionamento muito claro em relação a quais são os seus objetivos e metas. As instituições cuja temática de interesse é o setor social enfrentam um desafio particular devido à dinâmica desse setor, marcado por freqüentes mudanças. Para que os objetivos da instituição sejam mais facilmente atingidos, torna-se desejável que os profissionais diretamente envolvidos nas frentes de execução, que são os responsáveis pela materialização da atuação da mesma, estejam adequadamente capacitados em técnicas de gestão e sintonizados com a realidade na qual estão inseridos.

As propostas de curso, a nível de pós-graduação, desenvolvidas pelo LTDS estão estruturadas sobre uma concepção de gestor social que incorpore uma formação humanística às características de empreendedorismo necessárias ao ambiente das instituições. Mediante um convênio entre o LTDS/COPPE e o SESI – Serviço Social da Indústria, os cursos foram desenvolvidos como projeto-piloto e disponibilizados para a capacitação e qualificação de 62 executivos gerentes dos Centros de Atendimento ao Trabalhador dessa instituição, atuantes em diversos estados brasileiros.

Neste trabalho faz-se também uma exposição inicial sobre as ferramentas de apoio à educação à distância mediada por computador utilizadas e sobre as tecnologias desenvolvidas para adequação do conteúdo e atividades do curso às condições específicas e diferenciadas dos participantes.

2. A capacitação e formação de gestores de iniciativas sociais

2.1. O contexto

A concepção e a estruturação de cursos de pós-graduação para a área social vem se apresentando como um desafio para a equipe do LTDS desde a sua fundação, dado o imbricamento e abrangência das várias questões que se colocam na contemporaneidade (Bartholo, 1990).

Nas últimas décadas tem ocorrido uma significativa alteração no papel e na importância de algumas das principais instituições internacionais, nacionais e locais que serviram de referência para a compreensão da realidade deste século. Experimenta-se a radical supremacia do econômico sobre qualquer outro aspecto da vida contemporânea (Arendt, 1991; Lima Vaz, 1990). O mercado consolida-se a nível planetário, requerendo o surgimento de instrumentos de regulação de nível global.

Formam-se mercados regionais de porte compatível com os investimentos de capital necessários para a produção competitiva. Esta, se baseia em pesquisa científico-tecnológica de ponta e de alto custo. Afirma-se um mundo multipolar, onde as hierarquias e as lideranças internacionais ficam multifacetadas. Experimenta-se a relativização da centralidade assumida pelo Estado no cenário político moderno. Emergem as organizações da sociedade civil da esfera local, consideradas como atores de um ambiente mais favorável à ação política mais imediata e ao maior controle social. Elementos de identidade cultural e religiosa ressurgem como fatores motivadores da ação política em substituição à mera ideologia. Tudo isso dificultando a compreensão da realidade atual e, mais importante, uma intervenção eficaz (Polanyi, 1980).

Os ajustes a essa nova realidade são também predominantemente voltados para a gestão da economia e da produção. Têm por base uma renovada e fortalecida fé no mercado e na iniciativa privada (Bunhoff, 1991). Com a retirada do Estado tanto da atividade diretamente produtiva quanto da provisão da infra-estrutura a ela necessária, tornam-se acessíveis ao setor privado áreas de atuação que anteriormente não eram de seu alcance ou interesse (Bauman, 1999). Busca-se descobrir as possibilidades de novas parcerias com o capital privado no sentido de viabilizar recursos para a ação social que outrora se faziam disponíveis apenas através do Estado. Emerge o "terceiro setor", o qual atua a partir da identificação de espaços de interesse comum entre o econômico e o social, entre o privado e o público. Grande ênfase é dedicada à formação científico-tecnológica aplicada e ao estímulo à capacidade gerencial e operativa. Proliferam os cursos de administração e gerência da produção e do consumo, ao mesmo tempo em que se reduzem os recursos para a formação humanística clássica, que passa a ser considerada cara, além de destituída de sentido prático (Lima Vaz, 1994). Toda e qualquer atividade, seja de natureza produtiva ou social, passa a ter como condições necessárias para sua existência e continuidade a auto-sustentação financeira, custos e preços competitivos, gestão administrativa eficiente e habilidade nas aplicações financeiras; desconectando-se em muitas oportunidades o saber fazer do por quê fazer. (Bartholo, 1992). 

2.2. A concepção da proposta e objetivos

Atento para a necessidade de reunir os dois domínios - o prático e o valorativo -, o LTDS busca oferecer uma experiência de formação que permita tanto o aprofundamento da competência exigida pela gestão social eficaz, quanto o aprofundamento da compreensão crítica dos limites dessa experiência, em busca de alternativas para a sua superação, por meio da viabilização de uma complementaridade entre a aquisição de ferramentas gerenciais do mundo do saber fazer com a reflexão crítica baseada em critérios ético-valorativos típicos do mundo do por quê fazer.

As atividades de cunho mais conceitual são conduzidas de modo a permitir a compreensão histórico-cultural da questão social e sua indissociável dimensão ético-política. Adicionalmente são disponibilizados instrumentos teóricos e práticos mais atualizados de gestão social.

Objetiva-se assim oferecer uma alternativa de formação pós-graduada à lideranças e tomadores de decisão de organizações públicas e privadas que possibilite o aprofundamento do domínio sobre métodos e instrumentos recentes de gestão administrativo-financeira, conjugado à formulação de uma visão de mundo e de uma conceituação de desenvolvimento baseadas em considerações de ordem ético-valorativas.

2.3. A estrutura e conteúdo programático

A estrutura acadêmica do curso de especialização é modular. Cada módulo constitui um curso de aperfeiçoamento ou treinamento profissional. O curso de especialização é composto por três módulos de treinamento profissional. Os módulos são autônomos e independentes, de modo que não é necessária a realização dos mesmos em uma ordem seqüencial única para a conclusão do curso de especialização, visto que as disciplinas de um dado módulo não são pré-requisitos para as disciplinas de um outro módulo.

Os temas abordados nos módulos dos cursos estão divididos em blocos correspondentes às competências de um gestor de iniciativas sociais quanto ao entendimento a respeito do contexto geral, ao entendimento do contexto específico do setor social e à atuação direta sobre a realidade.

O módulo Planejamento Estratégico para a Gestão Social oferece elementos para a análise de cenários e planejamento das ações no setor, a partir de uma reflexão sobre a questão social nos contextos mundial e nacional e dos pressupostos metodológicos para a formulação de diagnósticos e planejamento estratégico. Constitui-se das seguintes temáticas:

História do Tempo Presente: o foco dos ensinamentos a serem transmitidos é a contemporaneidade. Pretende-se apresentar um amplo painel das transformações recentes e das tendências presentes nos cenários nacional e internacional.

Redescobrindo o Brasil: objetiva situar o modo de vinculação do Brasil aos cenários da contemporaneidade, enfatizando a necessidade de referir o presente a uma tradição e a uma identidade formadas na história.

Técnicas em Planejamento e Cenários: visa tornar acessível aos participantes a mestria de técnicas necessárias para a construção de cenários, com aplicações no planejamento estratégico e marketing, subsidiando a idealização e concretização de ações.

O módulo Projetos de Gestão Social engloba a análise e elaboração de projetos. Neste bloco trabalha-se a origem e a evolução das políticas sociais, passando por uma análise dos principais programas nesta área em execução no país, e apresentando as diversas metodologias envolvidas na concepção de projetos sociais. Constitui-se de:

Ética e Desenvolvimento: estuda os diálogos e tensões entre os modos de modernidade e as diversas tradições; abordando o conceito de crise, como um processo multifacetado, que se impacta sobre diferentes âmbitos da realidade: o político, o social, o econômico, o ético, o cultural e o ambiental.

A Historicidade da Questão Social no Brasil: engloba as morfologias do Estado do Bem Estar Social e sua implantação no Brasil, discutindo-se os dispositivos constitucionais recentes, bem como os vários aspectos da gestão social nas áreas de educação e cultura, saúde, trabalho e assistência social.

Técnicas em Projetos Sociais: visa a um aprofundamento da capacitação técnico-gerencial em técnicas da Engenharia de Produção voltadas para o atendimento de necessidades de iniciativas sociais, com destaque à consideração de especificidades situacionais do processo de desenvolvimento. O acervo de técnicas a ser disponibilizado abrange o levantamento e tratamento de dados e indicadores, para a elaboração e análise de impacto de projetos sociais.

O módulo Articulação e Gestão Social destina-se especificamente à gestão das iniciativas sociais, com ênfase na articulação interinstitucional que tal atividade pressupõe. Para isto, desenvolve-se uma reflexão sobre a relação entre Estado, Sociedade e Políticas Sociais, calcada na análise de experiências de parcerias bem sucedidas, associada a uma abordagem sobre os instrumentos metodológicos envolvidos na execução, negociação e acompanhamento de projetos sociais. Engloba:

Transformando Estado e Sociedade: o foco da atenção centra-se nas metamorfoses da relação entre setor público e setor privado na dinâmica econômica, social e política de nosso tempo, paralelamente a uma tematização sistemática das carências sociais do Brasil contemporâneo.

Agenda Brasileira: o cerne da tematização é a identificação de vulnerabilidades e potencialidades de especial significado para o desenvolvimento social do país.

Gestão de Iniciativas Sociais: desenvolve-se ao longo de vetores de cunho qualitativo, ético-valorativo, associando reflexões e discussões sobre temas vinculados ao setor social e sua problematização no Brasil, e de cunho instrumental, centralizado sobre as questões referentes à negociação e articulação social, monitoramento e gestão social.

2.4. Método de trabalho

A metodologia didática das atividades acadêmicas prioriza um enfoque dialogal, envolvendo oficinas e seminários, para se obter uma compreensão multidisciplinar dos conhecimentos abordados, utilizando uma estratégia de planejamento participativo no encaminhamento das soluções dos problemas abordados.

Nos cursos associam-se informações que traçam panoramas de cenários externos e internos das instituições, oferecendo instrumentos de gestão e planejamento para que os gestores melhor se posicionem face a essas contraposições.

Com relação ao cenário externo às instituições procura-se priorizar o conhecimento de políticas e indicadores sociais e dos macro-elementos fundantes da identidade social brasileira, discutindo-se os pressupostos ético-valorativos das relações econômicas e a divisão de poder na sociedade, contextualizada à inserção do Brasil no panorama internacional.

Em termos de cenários internos são providas discussões sobre os paradigmas e formas modernas de organização das instituições baseadas no conhecimento; a gestão em ambiente instável e a historicidade do posicionamento das instituições frente às políticas e questões sociais no país, construindo-se oficinas e workshops tematizando as responsabilidades e missão dos gestores sociais.

A intervenção na realidade enquanto prática da atividade gerencial é referenciada no âmbito dos cursos à instrução programada, oficinas e jogos de empresas que possibilitam reproduzir os diversos estilos de mediação entre os cenários, objetivando propiciar um elenco de estratégias compatível com as peculiaridades da gestão de iniciativas sociais, que exige uma perspectiva metodológica dialogal e participativa.

3. Implementação do curso

O curso de especialização foi implementado como um MSA – Master on Social Administration – Curso de Especialização em Gestão de Iniciativas Sociais, com uma carga horária total de 405h. As atividades iniciaram-se em Outubro de 1999 e se estenderão a Novembro de 2000.

Para atender os participantes de uma turma inicial espalhados por 23 unidades da Federação, foram planejadas atividades presenciais intercaladas por atividades à distância. Como suporte para o desenvolvimento da EDMC – Educação à Distância Mediada por Computador está sendo utilizado o software UniverSite. O UniverSite simula um ambiente universitário, constando de salas de aula, secretaria e administração, além de integrar diferentes meios de comunicação (e-mail, chat, fórum e FAQ), e possibilitar o monitoramento estatístico dos participantes.

3.1. As instâncias de comunicação

Para as atividades à distância foram definidas três instâncias de comunicação e interlocução com os participantes do curso: a coordenação acadêmica, os professores e o webmaster.

A coordenação acadêmica, responsável pela concepção, organização e acompanhamento geral das atividades do curso, estabelece uma interlocução no que diz respeito a comunicações de caráter formal e geral, atendendo também a solicitações pessoais; seja por meio de informações disponibilizadas em quadro de avisos da coordenação, ou por meio de correio eletrônico.

Os professores são responsáveis pela orientação dos conteúdos programáticos auxiliados pelos tutores das disciplinas. O sistema tutorial facilita o processo de aprendizagem, permitindo acompanhar e avaliar continuadamente o progresso de cada participante, garantindo um atendimento individual, cuja eficácia repousa na combinação dos recursos comunicacionais. A comunicação entre alunos e professores/tutores para o desenvolvimento das atividades se realiza através de e-mail, chat e fórum. As informações de caráter geral das disciplinas ficam disponibilizadas em quadro de avisos dos cursos.

O webmaster é responsável pelo apoio à navegação no software e por orientar o equacionamento de problemas de conexão ao site. Ao longo dos módulos, os participantes mantêm contato com o mesmo por meio de um "curso" específico de suporte, também utilizando as ferramentas fórum, e-mail e FAQ.

3.2. Recursos instrucionais

Cada participante conta com um material didático impresso de caráter auto-instrucional composto por cadernos e fichas de exercícios de cada disciplina. Este material impresso também se encontra em meio digital, no site, na sala de aula de cada disciplina. O aluno tem, ainda, indicações de textos de apoio e de sites que auxiliam no processo de auto-aprendizagem.

A discussão e acompanhamento dos conteúdos programáticos acontecem no ambiente da sala de aula virtual, por meio de fórum e chat. O fórum, como um instrumento de comunicação assíncrono, permite que o professor disponibilize os temas, monitorando o debate entre os participantes, e acompanhando o aproveitamento dos mesmos. Nas disciplinas de cunho histórico e teórico, o fórum é conduzido com todos os participantes; já nas disciplinas práticas e instrumentais - que se desenvolvem sob a forma de oficinas - a participação se dá em grupos de discussão e redes de aprendizagem em temas de interesse específico.

O chat, como meio de comunicação síncrono, é utilizado para socializar as reflexões suscitadas pelos conteúdos programáticos das disciplinas e como um recurso para discussão de grupos de trabalho mediada pelos professores e tutores.

O e-mail é um instrumento utilizado para comunicação individual entre tutores e participantes. É também o recurso pelo qual os participantes podem esclarecer dúvidas de conteúdo, solicitar material de apoio, além de obter informações quanto ao seu desempenho em atividades do curso.

3.3. Monitoramento e avaliação

No curso são realizados o acompanhamento, monitoramento e avaliação do processo ensino-aprendizagem pelas seguintes modalidades de avaliação: provas, trabalhos e qualidade de participação. Estas modalidades visam não só mensurar a apreensão e o domínio do conteúdo dos conceitos-chave das disciplinas, como também avaliar e promover condições de se atingir um conjunto de habilidades, valores e competências inerentes aos gestores de iniciativas sociais.

O acompanhamento da participação e o monitoramento do acréscimo de conhecimento dos participantes se dá por meio da análise e observação de informações de natureza diversa, como dados estatísticos disponibilizados pelo UniverSite, pesquisas de opinião e base de dados gerados nos fóruns e no decorrer das atividades à distância.

O monitoramento da entrada dos alunos no site é realizado por meio de estatísticas geradas pelo software. Este tipo de checagem permite conhecer os participantes que possam estar enfrentando problemas para o acompanhamento do curso e agir no sentido de identificar e de solucionar dificuldades. As pesquisas de opinião, que são utilizadas para se avaliar as atividades desenvolvidas durante os módulos do curso a partir das impressões dos participantes, focam os temas relativos às atividades presenciais e à distância, às facilidades e dificuldades para utilização das ferramentas de comunicação e informações quanto ao sistema tutorial.

3.4. Dificuldades e perspectivas

Durante a implementação do MSA – Master on Social Administration – Especialização em Gestão de Iniciativas Sociais as dificuldades apresentadas classificam-se em três grupos de naturezas distintas. O primeiro grupo de dificuldades se relaciona à heterogeneidade nos níveis de conhecimento e prática da telemática; o segundo grupo se vincula à precariedade da infraestrutura de rede brasileira de telecomunicações e o terceiro grupo a questões de dificuldade de conciliação de tempo entre as atividades rotineiras de trabalho e a necessidade de dedicação ao curso.

As dificuldades relacionadas aos diferentes níveis de conhecimento e habilidade para manuseio de computadores e compreensão das ferramentas necessárias para a realização do curso devem-se às experiências prévias dos participantes. Para contornar ou atenuar as mesmas durante o curso, foram testadas duas estratégias. Ao início do curso houve a implementação gradual na utilização das ferramentas de comunicação mais recentes. Em associação foi disponibilizado um curso permanente de suporte que procura orientar e sanar problemas de navegação no software, mas também fornece dicas básicas de como trabalhar com editor de texto e enviar e-mails.

As dificuldades associadas à infraestrutura precária da rede brasileira de telecomunicações são pressupostos para a realização do curso e, assim, impedem que sejam utilizadas com mais freqüência as ferramentas de comunicação síncronas (como os chats), fato que leva a priorizar, durante as atividades, ferramentas assíncronas. Para conciliar questões de tempo de trabalho e tempo de estudo, é feito um esforço de conscientização dos níveis hierárquicos superiores das instituições aos quais os participantes se vinculam.

Por outro lado, o curso foi concebido para propiciar condições de melhora na racionalidade das intervenções na área social, fato que traz para dentro das reflexões propiciadas pelo mesmo, muitos dos fazers cotidianos dos participantes, o que também tende a solucionar estas dificuldades. O grande potencial de um curso desta natureza, associado aos recursos de educação à distância, é a criação de redes locais e nacionais de aprendizagem, para o enfrentamento das questões sociais.

4. Conclusões

Neste trabalho foram apresentadas as reflexões efetivadas no âmbito da linha de trabalho em Engenharia de Interesse Social desenvolvidas no LTDS/COPPE, no que diz respeito às questões pertinentes à formação e capacitação de gestores de iniciativas sociais, a partir de uma visão das características e prerrogativas postas para esses profissionais.

Essa proposta surgiu como uma alternativa à preponderância das visões essencialmente pragmáticas inerentes aos cursos de gestão oferecidos pelas instituições superiores de ensino no âmbito das engenharias. A vigência de tal pragmatismo cobra um preço no vazio ético-valorativo que marca as experiências individuais e sociais contemporâneas, gerando uma fragmentação das visões de mundo que se tornam carentes de um ponto focal que lhes dê unidade e sentido, visto que a eficácia não é suficiente para dar significado à vida (Voegelin, 1982). A busca pela ética dá base à recuperação de valores comunitários tradicionais que tornam-se a esperança de restauração de complexos e combalidos sistemas sociais (Kliksberg, 1997), visto que, embora o mercado se imponha como o mecanismo mais adequado para a provisão das necessidades materiais, não consegue suprir as carências do espírito nem reparar os impactos sociais que causa (Buber, 1987).

A ênfase dada pelas sociedades contemporâneas ao saber fazer precisa ser contrabalançada pelo porquê fazer, pela reflexão sobre o sentido e as carências da vida atual (Buber, 1977). Afirma-se nas propostas de cursos a necessidade de posicionar, em termos práticos e conceituais, a existência de uma via alternativa profissional para o futuro, construída sobre a ética e a solidariedade (Illich, 1976), colocando-se como imperativos os debates sobre o desenvolvimento, com a recuperação de propostas de construção de projeto nacional, amarradas às raízes do processo civilizatório brasileiro.

Nesse contexto é que o conteúdo e a implementação dos cursos foi concebido de forma a ir além da ênfase atribuída pelos cursos de administração de negócios unicamente à questões relativas à ordem econômica, buscando-se uma abordagem que facilite a melhor compreensão da estrutura complexa da realidade atual, associada à busca de formas de intervenção que dêem conta da sua multiplicidade de aspectos (Guerreiro Ramos, 1983). Para isso associam-se informações que traçam panoramas de cenários externos e internos das instituições, oferecendo instrumentos de gestão e planejamento para que os gestores se posicionem de forma crítica face a essas contraposições.

As idéias apresentadas e desenvolvidas ao longo do curso procuram subsidiar a resolução dos graves problemas sociais atuais, apontando diretrizes para o enfrentamento de outros desafios contemporâneos tais como a sustentabilidade ambiental, o envelhecimento da população, a geração de empregos, a crescente pobreza da população brasileira.

5. Bibliografia

Alberto Guerreiro Ramos, Administração e contexto brasileiro: esboço de uma teoria geral da administração, 2a. edição, Editora da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1983.

Bernardo Kliksberg; O Desafio da exclusão – para uma gestão social eficiente; Editora Fundap, São Paulo, 1997.

Eric Voegelin, A Nova Ciência da Política, Editora Universidade de Brasília, 2a edição, Brasília, 1982.

Hannah Arendt em A condição humana, Editora Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1991.

Henrique C. de Lima Vaz , "Sentido e não-sentido na crise da Modernidade" in Síntese Nova Fase, v. 21 n. 64 (1994):5-14.

Henrique C. de Lima Vaz, "Ética e civilização" in Revista Síntese Nova fase, V. XVII, N. 49 (1990):5-14, p. 8.

Herbert Marcuse, A ideologia da Sociedade Industrial. O homem unidimensional, 6a edição, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1982.

Ivan Illich, A Convivencialidade, Publicações Europa-América, Lisboa, 1976.

Karl Polanyi, A Grande Transformação: as origens da nossa época, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1980.

Martin Buber, EU e TU, Editora Moraes, São Paulo, 1977.

Martin Buber, Sobre comunidade, Editora Perspectiva, Coleção Debates, São Paulo, 1987.

Maurício César Delamaro; Para Além da Administração das Coisas – Modernidade, Solidariedade e Cidadania no Contexto Brasileiro. Tese de Doutorado. Programa de Engenharia de Produção/COPPE/UFRJ.

Roberto dos Santos Bartholo Jr., "Metamorfoses do moderno", palestra apresentada no IPEA/DF, no Seminário "Meio ambiente e desenvolvimento sustentável, 5 a 8 de setembro de 1990, mimeo.

Roberto dos Santos Bartholo Jr., A dor de Fausto, Editora Revan, Rio de Janeiro, 1992.

Suzanne de Bunhoff, A hora do mercado: crítica do liberalismo, Editora UNESP, São Paulo, 1991.

Zygmunt Bauman; Globalização e as Conseqüências Humanas; Jorge Zahar Editor; 1999.

 
         

Volver al índice